27.7.13

Peixoto

"As pessoas passavam por mim como se a dor que me enchia não fosse oceânica e não as abarcasse também. (...) Como eu, esperavam; não a morte, que nós, seres incautos, fechamos-lhe sempre os olhos na esperança pálida de que, se não a virmos, ela não nos verá. Esperavam. (...) Quando saímos, agarrados como naúfragos, a luz abundante bebia-nos. (...) Se pudesse tinha-te protegido. (...) via-te ir
ao tratamento e doía-me a vida, doía-me a vida que em ti se negava, a vida a gastar-te, ainda que a amasses, a vida a derrubar-te, ainda que a amasses. O tratamento. Falavas nele, dizias a palavra, dizias vou ao tratamento e nós que sabíamos, enchíamo-nos de uma amargura indelével, definitivamente marcada vincada na nossa pele interior. (...) cheia de gente a dizer-me (...) os meus pêsames e sinto muito (...) Perder-te. E revivi o silêncio insepulto dos teus lábios mortos. E as sombras de nós, como se apenas esperassem estes pensamentos para se perderem, misturaram-se no preto. (...) Chora chove brilho alvura sobre mim. E oiço o eco da tua voz, da tua voz que nunca mais poderei ouvir. A tua voz calada para sempre. E, como se adormecesses, vejo-te fechar as pálpebras sobre os olhos que nunca mais abrirás. Os teus olhos fechados para sempre. E, de uma vez, deixas de respirar. Para sempre. Para nunca mais. (...) Tudo o que te sobreviveu me agride.(...) Nunca esquecerei." 

Excerto de "Morreste-me" de José Luís Peixoto

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