26.5.13

Tu

Puxo a cadeira, sento-me ao teu lado. Olho-te e delineio o azul dos teus olhos. Continuam iguais, nem o cancro consegue apagar essa cor do mar e do céu unidos. Conversamos e o sol chega quando te ris. Perguntas-me se há novidades e eu conto-te ironias e comédias da vida dos outros. Voltas a rir. Eles não se irão importar, também nunca saberão. É como quando nos rimos da queda de cu de alguém. 
O meu peito enche-se como um balão de ar quente. Quero-te levar desta sala, dessa poltrona. Eu sei. É egoísmo da minha parte querer dar-te o mundo neste jeito. 
Nunca. Nunca ninguém saberá quantificar quanto custa lutar contra o nosso próprio corpo. Nós mesmos contra nós mesmos, a mente contra o físico. Não há guerra mais cruel. E depois, ao início da semana, vem os enjoos da quimioterapia e o cansaço da fisioterapia. Tu não desistes mesmo assim e é nisso que te invejo. Esse teu feitio determinado e elogiado dá-te a magia para continuares. Por isso continua olhos azuis. 
Estou sentada ao teu lado. E falo pelos cotovelos, eu sei. Agora olho para ti. Não me lembro de mais nada para te contar. Odeio este silêncio. Quero perguntar o que não devo. Respondes-me que está tudo igual e que estas a recuperar. Eu contraponho comigo mesma mentalmente. Estás a fazer história olhos azuis. Digo. Onde não chega a ciência está Deus. Eu prometo-me agarrar a ele nos momentos em que nao seja eu a fazer-te sorrir. Não precisas de olhos verdes para que o destino te diga que consegues. Tu própria provarás a ele mesmo disso enquanto ele duvida de ti. 
Os heróis existem. Tu és um, no sexo feminino. 

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