20.4.11

Olhar

Em clima de dualidades ando a fintar-te com o olhar. Mas a bebida consome-te a consciência e o fumo consome-te os olhos. Perdes-te no paraíso falso que a moca te vai levando. Olho te outra vez. Estás fraco e já não és tu nesse corpo. Agora és uma figura robotica que responde às ordens dos vícios que te vão sugando por dentro. Volto a olhar-te. Os teus olhos de lince afundaram-se e eu só queria que percebesses os meus. Era só um beijo que te incitava. 

19.4.11

Sobejo

Os corpos estavam sobrepostos um no outro. A temperatura subiu depois dos beijos ousados. A mão dele subia a cintura saliente dela à procura de carne. A mão dela atravessava o peito robusto dele em busca de nudez. As mãos estavam frias.Os corpos dilatavam-se de calor fogoso, os cabelos arrepiavam-se nos braços. A respiração soava ao ouvido. O prazer estremecia em cada movimento dos corpos desnudos. Em cada beijo fugia uma onomatopeia simétrica a cada sobejo. A paixão esquivava-se do peito e dilatava a pupila dos olhos dela.

18.4.11

verão

A areia colada estranhamente no corpo. O sol a derreter a epiderme. Os corpos dilatados encaixados sobre uma toalha. Um beijo com textura de mar e um sabor salgado. A brisa a ondelar os cabelos e as marés a definirem as ondas. O verão no seu ponto mais alto.

3 coisas


Há três coisas essenciais:
A itensidade do amor, a loucura do sexo e o homem para concretizar as duas primeiras.

No vinte e nove


Sabia que ele a esperava no número vinte e nove.
Descendo a rua deu consigo com os olhos presos aos números das portas e ia fazendo a contagem decrescente de cabeça. Cinquenta e cinco, cinquenta e três, cinquenta e um. Quase lá. Sentia um aperto no peito, enjoada. Quarenta e sete, quarenta e cinco. O andar já ia muito depressa. Trinta e nove, trinta e sete. Os cotovelos iam ocasionalmente roçando contra a bacia, as mãos inchadas e suadas. Trinta e um, vinte e nove... Estática. O cansaço roubara-lhe um sorriso cabisbaixo. O olhos presos à tal porta, o coração eloquente e o corpo a desejar o sujeito daquela casa. 

13.4.11

Teen

Mostra ao mundo que és jovem. Mostra que ainda por uns largos anos a responsabilidade e a crise não ditam as regras. Inspira num cigarro e bebe numa bebida os sonhos que te estimulam. Dança arrojadamente em que cada paço ou movimento a sedução delineie as formas do teu corpo. Beija como se todo o teu amor surgisse do teu peito. Invoca a juventude em cada devaneio.

Canto da sala

Traz contigo a paixão que arde escondida sob o teu peito robusto. Encosta-me ao canto da sala e descobre onde se alberga a paixão que tenho por ti. Quebra a fragilidade do meu corpo em cada arrepio que o meu corpo anseia com o teu toque. Desdobra-me em suspiros. Oscila a minha intimidade sobre beijos fogosos. Cintila o nosso prazer junto ao canto da sala.

12.4.11

Enche o peito

São meias verdades em meia dúzia de mentiras. São puros encantos em eternos enganos. E por muito que assim seja enche o peito e sê feliz.

2.4.11

De propósito

-O que estás aqui a fazer?
-Vim buscar aquilo que me esqueci aqui.
-Não deixaste cá nada.
-Foram duas coisas na verdade.
-A sério, não deixaste aqui nada.
-Deixei sim, tu é que não te apercebeste disso.
-O que te esqueceste aqui então?
-Duas coisas: o meu coração e um beijo.
-O quê?
-Sendo sincera não foi por despiste que deixei aqui o meu coração, foi de propósito que me dei a ti. Lamento apenas ter-me dado ao vazio da tua casa.
-Nunca me apercebi que gostavas de mim.
-Nunca pensei que amar alguém custasse tanto.

Tens

Desces a rua troteando a calçada incerta. Estás com última música da rádio que ouviste a rodipiar na cabeça. Tens o sabor do último café que bebeste a adocicar a boca. E tens o último homem que amaste a estalar o teu coração. Todos os pormenores te deixam mórbido e tudo se desdobra em lembranças. Mas rua continua e já vai longe a esquina em que se virou. Tropeça-se mais uma vez na calçada, tropeça-se por outro instante noutra recordação. Isto é inútil, mas a rua continua.